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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Se amas a Deus, não o compreendes




Em maior ou menor grau,
o que vemos a cada instante é sempre novo.
Temos o olhar que um recém-nascido teria
se tivesse a percepção
de que tinha vindo à luz de facto.

Acreditamos nas coisas porque as vemos
ou porque alguém nos disse que existem.
Elas revelam-se, mas não as compreendemos,
porque as coisas não se pensam
(que eu saiba,
ninguém compreende uma flor ou a lua…).

Ainda que nem todos os que não pensam
possam amar,
se amas é porque não pensas.
Porque se pensasses
não ficavas a saber o que amas nem o motivo.

Se amas a Deus, não o compreendes.
E nem pensas nele, tal como se não o amasses,
porque se o fizesses estarias a desrespeitá-Lo,
já que Ele preferiu que o não víssemos.
Ou,
porque o olhamos como recém-nascidos,
não o vemos.

Jaime Portela



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Se me querem doutrinar




Se me querem doutrinar
e acham que devo abraçar uma religião,
fiquem descansados, já a abracei.
Mas apenas com a carne e com os ossos
que a terra ou o fogo hão de comer
é que sou religioso,
e portanto pecador…

Sem vontade de a entender,
vivo no desejo persistente
de sentir essa religiosidade
e não de acerca dela meditar.
Versejo almas sem saber o que elas são
porque a minha não a sei.
Se o soubesse, talvez fosse um santo
e nem sequer escrevesse um poema.

Essa é a minha religião,
peco a vida num deserto engarrafado
a encher o copo com as miragens
das almas de outros corpos,
num corpo a corpo sentido
onde as tento despir,
para as ver, sem jamais o conseguir.


Jaime Portela



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Se tudo sentisses e ouvisses



Se sentisses
todas as cores do chão que pisas,
talvez fosses menos feliz
e amaldiçoasses
a maioria das metáforas
que os sorrisos fingidos te vendem.

Se ouvisses
todos os rumores do ar que respiras,
talvez percebesses
a vantagem da surdez
e agradecesses não seres capaz de ler
os pensamentos dos outros.

Se tudo sentisses e ouvisses,
talvez estranhasses
quão nua vai a tua insignificância
e percebesses
quanta da bem-aventurança
dos pobres de espírito também é tua.




Jaime Portela


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Deste calor que se esvai



Deste calor que se esvai,
cuja falta me irá fazer triste,
dele guardo lenha enxuta
para o inverno, na ideia prevenida
de conservar algum fogo.

Por cada sonho que surge,
derrotados os tremores inevitáveis,
iludo as nuvens,
para não me arrefecerem
na procura de um viver clareado.

Por isso,
quero-te minha
no viço da maturidade, ainda flor,
para que desverdeças comigo
sem o sol-posto ao peito.




Jaime Portela


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Incontáveis são os eus que nos habitam



Incontáveis são os eus que nos habitam.
Diferentes os meus dos teus,
mesmo não os podendo comparar,
porque, tal como tu, por dentro não me vejo.
Vejo-te quando te imagino ou sinto,
mas desconheço qual de mim te vê.
Não sei qual de ti me imagina e sente,
nem sei qual de mim tu vês.
Se eu chamar de alma
àquilo que em nós imagina e sente,
as almas que temos são muitas.
Tantas almas quantos os eus,
que lutam entre si continuamente
para monopolizarem o imaginar e o sentir.
Porém, quando nos tocarmos, vamos contar
quantas das nossas almas se beijam
e, só então, saberemos se é com amor
que os nossos eus se entrelaçam.




Jaime Portela


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Conheces-me nos raciocínios das mãos



Conheces-me nos raciocínios das mãos,
nos considerandos do corpo e,
nas rugas engomadas do que sinto,
sabes dos reinos a ti semiabertos,
que nunca semicerrados o foram.

Nas tuas mãos,
já não tuas, mas minhas, que as quis,
teci uma auréola que bendiz
o teu corpo de Rainha coroado,
não a alma, que é de Deusa.

Nas minhas mãos,
já não minhas, mas tuas, que as usas,
debruaste um cetro que não vejo,
mas que sentes sob o manto da ternura,
também minha.

Por isso,
se da vida não sobrar maior gosto
que o ascético sentir,
sintamo-nos então e,
sem tatear,
moldemos cegos o sustentável.



Jaime Portela


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Miragens



Vozes
pretensamente guias
de espectadores involuntários,
líquidas e voláteis como todos nós,
vendem-nos as miragens
que cobiçamos.

Encurralados no labirinto da vida
que nos desenharam,
esquecemo-nos de pensar em nós,
verdadeiros,
e contemplamos enganos
que nos dominam
escravos de os venerarmos luzentes.

Porém, é na bondade fingidora,
a fazer de ainda maior
como o pão a levedar
(a esmola é grande),
que temos de aprender a medir
a distância a que de nós
está o céu que nos prometem.


Jaime Portela