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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Incontáveis são os eus que nos habitam



Incontáveis são os eus que nos habitam.
Diferentes os meus dos teus,
mesmo não os podendo comparar,
porque, tal como tu, por dentro não me vejo.
Vejo-te quando te imagino ou sinto,
mas desconheço qual de mim te vê.
Não sei qual de ti me imagina e sente,
nem sei qual de mim tu vês.
Se eu chamar de alma
àquilo que em nós imagina e sente,
as almas que temos são muitas.
Tantas almas quantos os eus,
que lutam entre si continuamente
para monopolizarem o imaginar e o sentir.
Porém, quando nos tocarmos, vamos contar
quantas das nossas almas se beijam
e, só então, saberemos se é com amor
que os nossos eus se entrelaçam.




Jaime Portela


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Conheces-me nos raciocínios das mãos



Conheces-me nos raciocínios das mãos,
nos considerandos do corpo e,
nas rugas engomadas do que sinto,
sabes dos reinos a ti semiabertos,
que nunca semicerrados o foram.

Nas tuas mãos,
já não tuas, mas minhas, que as quis,
teci uma auréola que bendiz
o teu corpo de Rainha coroado,
não a alma, que é de Deusa.

Nas minhas mãos,
já não minhas, mas tuas, que as usas,
debruaste um cetro que não vejo,
mas que sentes sob o manto da ternura,
também minha.

Por isso,
se da vida não sobrar maior gosto
que o ascético sentir,
sintamo-nos então e,
sem tatear,
moldemos cegos o sustentável.



Jaime Portela


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Miragens



Vozes
pretensamente guias
de espectadores involuntários,
líquidas e voláteis como todos nós,
vendem-nos as miragens
que cobiçamos.

Encurralados no labirinto da vida
que nos desenharam,
esquecemo-nos de pensar em nós,
verdadeiros,
e contemplamos enganos
que nos dominam
escravos de os venerarmos luzentes.

Porém, é na bondade fingidora,
a fazer de ainda maior
como o pão a levedar
(a esmola é grande),
que temos de aprender a medir
a distância a que de nós
está o céu que nos prometem.


Jaime Portela


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Todos nós somos biodegradáveis



À sombra
do imponderável guarda-chuva sem pano
do Criador desleixado,
moramos sem guarda-soleiro à vista
que nos ajude a resistir
a furacões, secas
e demais anomalias climáticas
por Ele
ou pelo seu braço armado enviados.
Impotente
face ao Homem
que do barro Ele nos impingiu
em duas tentativas
[eventualmente falhadas],
temo tão-só que o acaso me tenha concedido
o contento e o inverso por destino.
Da certeza do ser,
nada mais tenho que as incertezas da vida
que o Criador nos legou,
já que o sustento da paz
e do ambiente
só respeitando os outros
e a biodiversidade
porque Ele não terá como nos sustentar
[nem sequer é biodisponível
e todos nós somos biodegradáveis].



Jaime Portela


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O pretérito é o presépio da memória



Quando ausente,
viajo na lembrança natalícia do que eu era.
Diferente me observo
e o pretérito é o presépio da memória.
À distância, poderia ter sido bem melhor,
mas quem eu era na verdade
é um ar que se vai desfigurando
na quimera do intangível.
Não é do agora
a nostalgia que me assalta,
nem do ontem percorrido a passos largos,
apenas a saudade de alguém
que mora aquém
dos olhos que não veem de tão perto.
Nada nem ninguém,
salvo o momento,
me sabe e lembra quem eu sou.
São estrelas polares distintas
o pouco a barlavento
do ano mau que acabou
e o muito a cada ano bom a sotavento
que o vento ainda não levou.


Jaime Portela



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Alma de organdi



Vejo poemas nos seios
continuamente arrimados
e prudentes
no avesso recatado da tua blusa.
Não com a pele desgrenhada,
que apenas se despe
de um jeito que surge
do nada apressado,
mas com as mãos
atadas à loucura que grassa
nos poros reciprocamente atraídos.

Leio poemas nos lábios vermelhos
que sempre olhei hospedados
no brilho fácil do teu sorriso.
Não com a enganada razão,
que apenas se adorna
das formas sedutoras
que crescem da imaginação,
mas com os gestos desgovernados
dos sentidos que se procuram.

Vejo e leio poemas em ti
porque, com a mesma fala
e com o mesmo olhar,
na tua pele os teces
das cores mágicas com que bordas
a tua alma de organdi.

Jaime Portela


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Esta imensa e pouca Terra



Esta imensa e pouca Terra,
que exaurimos
apressados como o comboio
que passa a engolir os carris
sem parar no apeadeiro para pensar,
está prestes a descarrilar.

Por fraudulentos limites,
ao lucro imediato não lhes dói,
nem os comove,
fazer tábua rasa das leis da Natureza,
onde nem tudo se transforma
como disse Lavoisier.

E o futuro que vemos,
ao olhar o presente
de prados já carcomidos, inseguro vive
pela virtuosa vista que mingua.      



Jaime Portela