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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Sei que há destino



Depois de sentir a vertigem da entrega,
mergulhei nas costelas de todos os vendavais
como um oceano impaciente que parte,
a toda a hora, as amarras do querer
do porto de mim mesmo.

Depois de beber a luz espelhada no teu rosto
e de enrolar no estômago a saudade,
vejo-me agora quieto, manietado,
como se de repente não quisesse
parar de ler o poema inscrito no teu corpo.

Depois de sentir a tua língua apurada
a sussurrar, percebi, enquanto sorvia
os teus suspiros dedilhados num cântico
parecido ao que Pedro fez a Inês,
que a vida estremece ao som de música.

Depois disso, sei que há destino
para a inexplicável poesia do presente.


Jaime Portela


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Se vida houver para além da morte




Dos astros que ofuscam a nossa claridade,
seremos o eclipse, ressurgindo únicos
da curta borrasca do tempo,
para reacendermos o brio anavalhado
por autópsias sucessivas do que fomos.

Até então embalsamado em rotinas
de caminhos minados, o nosso sangue
fará praias das falésias traiçoeiras,
sem o medo de sermos dissecados
pelos bisturis intolerantes do despeito.

Adestraremos asas em voos rasantes
ao triângulo das Bermudas e, arrebatados,
gozaremos o caos  sem nos atarmos
aos sargaços das águas infetadas e
dolosamente mansas da resignação.

Se vida houver para além da morte,
será o tempo da demora preguiçosa
das minhas mãos no rosto do teu jeito,
o tempo de desenhar com os meus lábios
uma flor na tua boca eternamente verde
e de a fazer crescer no horto do teu peito.



Jaime Portela


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pesadelo



Imaterial e desmedido,
carregado de estátuas
que se movem emancipadas a roçar a pele,
procura a barriga absorta do sono
enquanto imagens pardas de monstros
o alimentam de espaços voláteis
e de relógios ambíguos
numa babel irreprimível.

Manietada,
entrando e fugindo do olhar fechado,
que acende e apaga o tormento
ao ritmo de novas estátuas
que se vão dissolvendo e substituindo,
a vontade trava um duelo impotente
para unir o tempo imóvel
que se diverte
a engolir os gritos de sons invisíveis.

Numa rotura de suor,
os fantasmas pintados nas pálpebras
são finalmente expulsos pela razão,
ainda dormente,
e o sossego retoma a espessura do nada.
A batalha foi ganha,
mas nos ossos doridos fica a certeza
de uma guerra sonolenta e repetível…



Jaime Portela


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O teu ar é o repelente



É na vulnerabilidade da tua pele
Que afago tapeçarias suaves
E onde traço silhuetas de luxúria
Com uma pena de sonho permanente.

É no orvalho do desejo derramado,
Sem a obstrução de juízos adormecidos,
Que da morte nos acordamos acesos
Quando a estremunhada manhã nos sorri.

És o expoente da minha certeza,
És árvore mulher de raiz no teu sol,
Onde me abrigo e enxuto me entronco.

O teu ar é o repelente, que me atrai,
Para afastar negras memórias que gritam,
Mas que à luz se matam em silêncio.



Jaime Portela